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Classificação de Risco e Investimento Estrangeiro no Brasil1
Maria Amélia Rodrigues da Silva*
A recente divulgação das pesquisas eleitorais tem provocado uma grande oscilação nos índices do “risco Brasil” que são calculados pelas distintas Agências de Classificação de Risco. Isso tem se refletido negativamente na avaliação dos investidores internacionais, abrindo um amplo leque de especulações.
Mas, afinal de contas, o que garante a essas Agências o poder de determinar quais economias devem ou não ser merecedoras da confiança desses investidores?
As Agências de Classificação de Risco, tais como as tradicionais J.P.Morgan, Merrill Lynch, Standard & Poor’s, Moodys Investors Service, dentre dezenas de outras, são instituições que atuam em diversos países e que gozam de grande credibilidade perante os que recorrem aos seus serviços como analistas de crédito, tradings, gerentes de risco, planejadores estratégicos, bancos, consultores etc. Algumas destas são empresas que já estão há mais de um século no mercado, como é o caso da Moody’s, que foi criada nos Estados Unidos, em 1900. Segundo seus proprietários a confiança que os clientes depositam nas suas análises é o principal produto e garantia de sustentação no mercado. Portanto, é o nível de acerto no passado, o grau de confiança do investidor e a conseqüente influência na formação de opinião que avaliza a ação destas agências, ou seja, é o livre jogo do mercado e não alguma autoridade controladora, como se poderia imaginar.
O mercado financeiro, por sua vez, é extremamente sensível e nervoso, embora o mundo real seja intrinsecamente instável, o investidor padrão quer se cercar de um ambiente o mais seguro possível para ter a certeza de que suas poupanças terão o mais alto retorno, dentro de condições previsíveis. Um ambiente seguro significa, dentre outras coisas: fundamentos macroeconômicos consistentes com políticas monetária, fiscal e cambial bem definidas, ou seja, inflação controlada, câmbio realista, governo que honre seu compromissos, estabilidade político-institucional, além de regras claras no que se refere ao cumprimento de contratos e ambiente concorrencial. Alterações nestas condições podem afetar significativamente a expectativas nos mercados financeiros. É justamente em cima de variáveis como: inflação, juros, dívida interna e externa, regime político, estabilidade das instituições sociais, dentre inúmeras outras, que a Agências de Classificação de Risco hierarquizam as economias através de seus “ratings” (escalas de risco).
Segundo a Moody’s “uma classificação é uma opinião sobre a capacidade futura e a responsabilidade jurídica de um emitente efetuar, dentro do prazo, pagamentos do principal e de juros de um título”. No entanto, não se trata de qualquer opinião, mas de uma análise cuidadosamente preparada por profissionais de crédito com larga experiência no setor. Após sua definição, a classificação adotada é submetida a um comitê interno antes de sua publicidade. O maior objetivo de publicar a classificação é influenciar as expectativas dos investidores.
Os investidores, por seu turno, apresentam diferentes perfis que revelam sua disposição à aceitar riscos. Há o perfil “hedge” que é avesso ao risco, este tipo de investidor prefere ter um baixo retorno, mas quer amplas garantias de que não vai ter perdas, mas há também o perfil “especulativo” que não teme riscos se perceber que tem possibilidade de obter ganhos elevados. A maioria dos investidores se enquadra no primeiro perfil – “hedge” – e uma classificação desfavorável é um forte estímulo para não arriscar .
Identificado como se formam as expectativas dos investidores abre-se também um campo fértil para as “profecias auto-realizadoras”, provocadas por instituições especulativas nem sempre tão éticas e que possuem interesse próprio em determinado tipo de conduta. Dessa forma, corre-se o risco de uma previsão se concretizar apenas porque ela foi prevista, graças ao “efeito manada”, isto é, o comportamento imitativo dos agentes que preferem seguir o que determina a maioria - do tipo “Maria vai com as outras”, isso é mais verdadeiro na medida em que a previsão é feita por um agente que goza de certa credibilidade. Por exemplo, o mercado aposta que o preço do dólar vai subir, os agentes, com base nesta informação, correm para comprar dólares, o crescimento da demanda faz, de fato, os preços subirem. Se o mercado aposta que uma determinada ação vai se valorizar e os investidores, de posse desta informação, decidem apostar, a procura destas ações aumenta e sua cotação sobe. O mesmo raciocínio pode ser desenvolvido para o caso de se classificar desfavoravelmente um país, os investidores ficam afugentados a falta de boas oportunidades prejudica ainda mais a vinda de novos investimentos. A situação pode ficar muito pior se o país for dependente de capital externo para se financiar, como é o caso brasileiro.
A formatação da atual política brasileira é de financiar os constantes déficits na conta de transações correntes (resultado das exportações menos as importações de bens, de serviços como a renda de capitais, seguros, transportes viagens, dentre outros, e das transferências) com investimento estrangeiro, conforme pode ser visualizado pelo gráfico, a seguir.
Desde a implantação do Real, em 1994, até o ano passado essa conta vem acumulando déficits sucessivos. O montante acumulado, nesse período, já alcançou US$180.3 bilhões. Na primeira fase do real os déficits foram financiados com as reservas internacionais, que chegaram perto dos US$80 bilhões, porém na medida em que estas foram se esgotando, houve a necessidade imperiosa do auxílio do capital externo. Só para se ter uma idéia da atual importância deste capital basta se comparar o montante das atuais reservas internacionais , que estão em torno de US$33 bilhões, com o montante de investimentos estrangeiros que, segundo a última informação disponível do Banco Central foi de US$33,3 bilhões, no ano de 2000.
Portanto, nos moldes da atual política econômica, a manutenção de taxas de juros elevadas tem sido um dos instrumentos cruciais que o governo tem adotado, dentre outros objetivos, para atrair os investidores que estão desconfiados com o atual rumo que a política nacional vem tomando, sinalizado pelas pesquisas de opinião . Na tentativa de evitar o “efeito manada” que pode ser desencadeado pelo rating das Agências de Classificação, o governo procura restabelecer a confiança dos investidores assegurando-lhes as mais atrativas condições para compensar o possível risco.
Dessa análise pode-se extrair pelo menos duas importantes conclusões: a primeira é de que opiniões “não leigas” têm poderosa influência na formação das expectativas dos agentes e pode acontecer que instituições se aproveitem em benefício próprio, mesmo correndo o risco de perder a credibilidade do mercado, como o recente caso promovido pelo Banco Holandês . A segunda é de que esse temor das classificações de risco que mostram a instabilidade dos mercados brasileiros, revela a grande vulnerabilidade da economia e de que o atual Governo, depois de oito anos de mandato não deixará a economia brasileira em bases muito sólidas, como se diz insistentemente na imprensa.
1 A autora agradece os comentários e sugestões da Econ. Elizabeth Reymão, Conselheira do CORECON-PA/AP. * Economista, professora e pesquisadora da UFPª e Unama, Vice-Presidente do Conselho Regional de Economia–PA/AP.
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