Confesso que não me alinho àqueles que, por não concordarem com as posições políticas defendidas pelo ator Wagner Moura, não apenas torceram para que ele e o filme O agente secreto não fossem laureados com o Oscar, mas comemoraram o resultado da premiação.
Isso porque, independentemente do posicionamento do citado ator, torci pelo cinema brasileiro, que faz parte da nossa cultura e da nossa economia criativa, da qual sou um estudioso. Conforta-me o fato de saber que o referido filme concorreu em quatro categorias − melhor filme, melhor ator, melhor filme internacional e melhor elenco −, revelando um reconhecimento da qualidade do cinema brasileiro que não existia até poucos anos atrás.
Além das quatro indicações de O agente secreto, o diretor de fotografia paulista Adolpho Veloso tornou-se o primeiro brasileiro a ser indicado ao Oscar de melhor fotografia, concorrendo na edição de 2026 pelo filme Sonhos de trem. Apesar da aclamada cinematografia baseada em luz natural, ele não levou a estatueta, que ficou com Autumm Durald Arkapaw pelo trabalho realizado no filme Pecadores.
Enquanto acompanhava a cerimônia de premiação, fiquei imaginando a repercussão de uma eventual conquista do Oscar em duas categorias, melhor filme e melhor filme internacional, repetindo o feito de Parasita, o filme sul coreano de 2019, que ganhou quatro Oscars na 92ª cerimônia da Academia em 2020. Além de ter sido o primeiro filme em língua não inglesa a vencer na categoria de melhor filme, conquistou também as estatuetas de melhor diretor (Bong Joon-ho), melhor roteiro original e melhor filme internacional.
Fiz questão de rever o referido filme a fim de constatar, uma vez mais, não só suas qualidades cinematográficas, mas também as razões pelas quais a Coreia do Sul transformou-se em verdadeiro caso de benchmark em se tratando de economia criativa.
Costumava afirmar em minhas aulas e palestras, em tom de brincadeira, que há uma prática que, no passado, dava cadeia com o nome de "espionagem industrial"; atualmente é considerado chique com o nome de "benchmark". Como o acesso às informações tornou-se generalizado, praticamente impossibilitando guardar algum segredo a sete chaves, fica todo mundo de olho no que os outros estão fazendo para produzir algo semelhante, se possível com um pequeno diferencial que atua como uma espécie de cereja do bolo.
Essa prática é generalizada, sendo utilizada por indivíduos, empresas e países.
Nesse sentido, é natural que o Brasil observe as boas práticas realizadas por outros países e considere a viabilidade de adaptá-las à sua realidade. Em se tratando de economia criativa ou de cidades criativas, o recomendável é buscar exemplos em países que sejam considerados de padrão de desenvolvimento mais ou menos comparável ao nosso.
Por essa razão, é recomendável que olhemos com especial atenção o que vem sendo realizado pela Coreia do Sul, cujo sucesso da economia criativa tem sido estudado como uma espécie de referência por muitos especialistas, incluindo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a UNCTAD, que a mencionou em seu relatório. Conhecida como efeito Hallyu ou "onda coreana", o processo de expansão da indústria cultural e criativa sul-coreana espraiou-se pelo mundo a partir de uma extensa política de Estado, levada a cabo por décadas, no fomento à produção e exportação dos produtos de sua indústria cultural.
Esse processo de expansão global da economia criativa sul-coreana teve início na metade da década de 1990 e ocorreu em três fases: na primeira onda, os mercados vizinhos foram apresentados aos programas de TV e aos K-dramas; as ondas seguintes alcançaram regiões mais distantes, até se tornarem verdadeiros best-sellers da economia criativa mundial.
Assim, passaram a fazer parte do vocabulário da cultura musical pop mundial nomes como o do rapper Psy e seu hit viral, Gangnam Style, seguido de perto pelos Idols que difundem o ritmo da música pop do país pelo mundo, amealhando uma quantidade impressionante de fãs, e de dólares, pelos países por onde passam. Em vídeo, a Hallyu foi o veículo de difusão para sucessos globais de produção mais recente, como a série Round 6, lançada na plataforma de vídeos Netflix no ano de 2021, ou mesmo, distribuído em outro circuito, o filme de suspense Parasita, vencedor do Oscar de melhor filme internacional e da Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes.
O relatório da UNCTAD baseia-se na abordagem de David Throsby, que identifica três características que singularizam a economia cultural: a primeira e mais relevante característica é a de que a economia cultural requer como condição sine qua non a participação de algum aspecto da criatividade humana na produção; a segunda característica refere-se à capacidade da economia cultural de produzir bens e serviços que possuem valores e significados simbólicos; por fim, a terceira característica reside na capacidade da economia cultural de criar propriedades intelectuais.
Em trabalhos anteriores, por sua vez, os pesquisadores da UNCTAD procuraram expandir a definição de Throsby com o intuito de incluir as conexões entre a economia do conhecimento e a tecnologia em sua relação com amplos setores das chamadas indústrias criativas, aspecto que assume destaque ainda maior numa época de forte influência da inteligência artificial e das comunidades em rede. Outra interessante relação, também buscada pelos autores do relatório nas pesquisas de David Throsby, consiste em uma compreensão ampliada da definição de política cultural, propondo o entendimento de que setores culturais basilares, como a literatura, a música e as artes performáticas e visuais criam, em essência, os conteúdos que serão assimilados e difundidos por setores culturais de caráter mais comercial, como as produções audiovisuais, os videogames, a arquitetura e o design.
Relatos de quem conhece a realidade sul-coreana testemunham a incrível popularidade dos gamers, que conquistam as principais colocações nos torneios realizados dentro e fora do país, comparável à de ídolos do futebol internacional da magnitude de um Messi, Cristiano Ronaldo ou Neymar.
Encerro este artigo reproduzindo depoimento de Ana Carla Fonseca, uma das maiores especialistas brasileiras em economia criativa, que esteve na Coreia do Sul, a convite da UNESCO, para uma reunião com 20 especialistas internacionais para trabalhar nas bases do primeiro framework unindo artes e educação:
"Vi, na prática, o que tanto sonhamos para a economia criativa no Brasil. O país dá uma aula magistral de como sinergizar talento, economia e identidade cultural para gerar vantagem competitiva global. A onda K é o resultado de décadas de estratégia contínua e transversal, uma política público-privada, com investimento (não apenas subsídios) em cultura, construção de ecossistemas criativos, alavancagem de conteúdos pelos meios digitais e respeito à propriedade intelectual como remuneração dos criadores."
Luiz Alberto Machado -Economista, graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Mackenzie, mestre em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa (Portugal), é sócio-diretor da empresa SAM - Souza Aranha Machado Consultoria e Produções Artísticas e consultor da Fundação Espaço Democrático. Foi presidente do Corecon-SP e do Cofecon.

