O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de janeiro avançou 0,33% ante dezembro, no mesmo ritmo observado no final do ano passado e dentro das expectativas, o que sinaliza a continuidade do processo de desinflação em 2026, ainda que com oscilações no curto prazo. O dado, divulgado nesta terça-feira (10), pode dar ao Banco Central (BC) maior convicção para acelerar o ritmo de cortes de juros na economia, com forte impacto nos investimentos ainda que favorável à renda fixa, com destaque para títulos prefixados.
O índice de janeiro apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a inflação acumulada em 12 meses acelerou para 4,44%, ante 4,26% no encerramento de 2025. No entanto, ele reforça a leitura de um ambiente inflacionário mais benigno e uma possível aceleração do ritmo de cortes da taxa Selic já na reunião de março, quando parte relevante do mercado financeiro passou a precificar uma redução de 0,50 ponto porcentual.
A leitura segue influenciada por fatores pontuais. Segundo Alexandre Maluf, economista da XP, o avanço no acumulado reflete um efeito de janeiro do ano passado, quando o IPCA foi artificialmente pressionado para baixo pelo bônus de Itaipu nas tarifas de energia.
Basicamente, esse bônus é um desconto temporário aplicado na conta de luz dos consumidores quando a usina hidrelétrica registra excedente financeiro ao longo do ano. Esse valor é devolvido às distribuidoras e repassado aos consumidores na forma de redução tarifária, o que provoca uma queda pontual no preço da energia elétrica.
Como a energia tem peso relevante no IPCA, a aplicação do bônus tende a puxar a inflação para baixo no mês em que ocorre, sem representar uma melhora estrutural do quadro inflacionário, o que pode distorcer comparações interanuais, como ocorreu em janeiro do ano passado.
“Não dá para esquecer que em janeiro de 2025 houve o pagamento do bônus de Itaipu. Isso explica boa parte da alta do IPCA em 12 meses agora. Nas nossas contas, esse indicador deve cair para perto de 3,7% já em fevereiro”, afirma Maluf.
Na composição do índice, os preços administrados tiveram papel central. A ativação da bandeira verde levou a uma deflação de 2,7% em energia elétrica, enquanto a gasolina subiu 2,06%, refletindo o aumento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Reajustes em tarifas de ônibus e metrô em diversas capitais também pressionaram o grupo, que avançou 0,53%, em linha com as projeções.
Do lado dos preços livres, a surpresa veio da alimentação no domicílio, que subiu apenas 0,10%, abaixo do esperado. Maluf destaca quedas relevantes em itens como leite (-2,3%), frango (-1,4%), ovos (-4,5%) e arroz, que segue em deflação. “Esses foram os principais vetores baixistas do índice no mês”, observa.
Em serviços, a inflação ficou em 0,50%, em linha com o esperado, mas com sinais claros de desaceleração. O acumulado em 12 meses recuou de 5,88% para 5,57%, enquanto a média móvel trimestral anualizada caiu de 5% para 4,6%. Houve alívio em segmentos como passagens aéreas, transporte por aplicativo e seguros, ajudando a leitura qualitativa do dado.
Apesar disso, alguns players do mercado não classificaram o dado como completamente benigno. Para Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, o IPCA confirmou uma inflação mais comportada na margem, mas sem entregar a melhora qualitativa que parte dos investidores esperava.
“O número veio dentro do intervalo de tolerância da meta, mas ainda em um patamar desconfortável. Os núcleos e os serviços subjacentes vieram mais pressionados do que o previsto, o que explica a abertura da curva de juros e reforça que a desinflação segue irregular”, avalia Spyer.
Ele acrescenta que a persistência da inflação de serviços indica uma demanda ainda resistente, sustentada por mercado de trabalho apertado e rendimento
Já Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos, avalia que a abertura do IPCA foi equilibrada. Segundo ela, os serviços intensivos em mão de obra vieram levemente abaixo do esperado, enquanto os bens industrializados surpreenderam para cima, especialmente os duráveis.
“O IPCA de janeiro veio em linha com a nossa projeção, e o resultado não altera nossa avaliação nem para a inflação nem para a política monetária. Mantemos IPCA de 4,1% em 2026 e Selic em 13%“, afirma.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), componente do IPCA e que serve de referência para reajustes salariais, subiu 0,39% em janeiro.
O que isso muda nos juros?
Mais do que o tamanho do ajuste, o IPCA serve como termômetro da confiança do Comitê de Política Monetária (Copom) na trajetória futura dos preços e essa leitura redefine estratégias em renda fixa, Bolsa de Valores e câmbio.
Para André Valério, economista sênior do Inter, o IPCA de janeiro reforça a leitura de que o Banco Central tem espaço para iniciar o ciclo de cortes da Selic com um ajuste de 0,50 ponto percentual já em março.
Segundo ele, o dado veio em linha com o esperado e não diverge do cenário-base do Copom, mesmo mantendo a tendência de piora marginal no qualitativo observada em dezembro. Valério destaca que o período entre dezembro e março é historicamente marcado por maior sazonalidade inflacionária, mas que, neste ano, as leituras têm sido menos intensas do que em anos anteriores.
“Mesmo com essa piora marginal, o resultado está dentro do esperado e não altera a decisão do Copom”, afirma.
Para o economista, um corte menor poderia sinalizar baixa convicção no início do ciclo, o que não se justifica diante do elevado grau de aperto monetário, dos impactos já visíveis sobre a atividade e de uma inflação que segue comportada dentro da sazonalidade.
Ele avalia ainda que, mesmo com o início dos cortes, o diferencial de juros continuará historicamente alto e que o comportamento do câmbio deve ser mais influenciado pelo enfraquecimento global do dólar e pelo maior apetite a risco, favorecendo fluxos para o Brasil e permitindo que o Copom avance nos cortes ao longo do ano sem gerar volatilidade cambial relevante.
A expectativa do Inter é de um corte de 0,50 ponto percentual em março e de uma trajetória mais cautelosa ao longo de 2026, com a Selic encerrando o ano em 12,50%.
A XP mantém a mesma expectativa, projetando cinco cortes nessa magnitude ao longo do ano, levando a Selic a 12,5% em 2026.
Como montar a carteira
Na avaliação de Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest, a diferença entre um corte de 0,25 pontos porcentuais (p.p.) e 0,50 p.p. extrapola o impacto matemático sobre os juros. Um movimento mais intenso sinaliza maior convicção do Banco Central no processo de desinflação, ancora expectativas e reduz incertezas no mercado. Nesse cenário, ativos pós-fixados, como Tesouro Selic e Certificados de Depósito Bancário (CDBs) atrelados ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI), perdem atratividade relativa mais cedo, já que acompanham diretamente a queda dos juros.
Em contrapartida, títulos prefixados e papéis indexados à inflação com prazos intermediários e longos ganham espaço, ao combinarem juros ainda elevados com potencial de valorização à medida que as taxas futuras recuam.
Patrus acrescenta que fundos de renda fixa mais ativos e estratégias de crédito privado de boa qualidade também capturam esse movimento, desde que o investidor aceite maior oscilação e selecione o risco com mais critério.
Renda fixa ainda domina, mas o perfil começa a mudar
Mesmo diante da possibilidade de um corte mais agressivo, a leitura predominante aponta que a renda fixa permanece extremamente atrativa. Para Peterson Rizzo, gerente de relações com investidores da Multiplike, o Brasil ainda opera em um patamar de juros historicamente elevado.
“Mesmo com um corte de 0,50 p.p., a renda fixa continua muito atrativa. Estamos falando de um juro real alto, especialmente quando comparamos com outros países”, afirma.
Segundo ele, o que muda é a dinâmica interna da classe. Investimentos atrelados à Selic passam a entregar retornos marginais menores, enquanto prefixados e títulos indexados à inflação ganham protagonismo por embutirem potencial de valorização com a queda dos juros.
Rizzo ressalta que a principal diferença entre cortes de 0,25 p.p. e 0,50 p.p. aparece na velocidade de reação dos mercados. Um corte maior acelera a valorização de ativos sensíveis ao ciclo econômico, como ações e prefixados. Já um movimento mais contido suaviza a volatilidade, mas também posterga ganhos potenciais.
Sinalização pesa mais do que o número em si
Para Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, o impacto econômico direto da diferença entre 0,25 p.p. e 0,50 p.p. é limitado, mas a mensagem ao mercado faz toda a diferença. Um corte menor sinaliza um ciclo de afrouxamento mais longo do que o precificado, endurecendo a curva de juros nos prazos intermediários e longos.
Já um corte de 0,50 p.p. reforça a leitura de que o BC reconhece o peso do aperto monetário sobre a economia e busca aliviar empresas e contas públicas após um período prolongado de juros elevados. Ainda assim, Cruz avalia que a renda fixa deve continuar extremamente atrativa ao longo de 2026.
“Existe quase um número mágico na cabeça do investidor, aquele 1% ao mês, que segue chamando muita atenção”, afirma.
Ao mesmo tempo, ele observa um desconforto crescente entre investidores com perfil mais arrojado, que passam a olhar com mais interesse para ações e fundos imobiliários à medida que o ciclo de juros avança.
Curva de juros dita o timing dos investimentos
Alexandre Pletes, head de Renda Variável da Faz Capital, destaca que o impacto para o investidor se concentra muito mais no comportamento da curva de juros do que no tamanho exato do corte em março. Segundo ele, o CDI permanece elevado por um período prolongado, sustentando a atratividade da renda fixa no curto prazo.
Para Pletes, o timing de entrada em prefixados e na Bolsa já aparece precificado nos vencimentos mais longos da curva. Um corte de 0,50 p.p. confirma o cenário-base do mercado, enquanto um movimento de 0,25 p.p. frustra expectativas por sinalizar uma demora maior no estímulo à economia – sem alterar, porém, a lógica estrutural de alocação.
Curva de juros, bolsa e agenda cheia no radar
Com fôlego limitado das bolsas internacionais e das commodities, como petróleo
Com inflação mais controlada e juros em queda, o câmbio reage por múltiplos canais. No curto prazo, a redução do diferencial de juros pressiona o real. Em paralelo, a melhora das expectativas de crescimento e a redução do risco macro elevam o apetite por risco e atraem fluxo para ativos brasileiros.
Patrus, da Bossa Invest, avalia que essa combinação aumenta a volatilidade do câmbio, exigindo mais diversificação e gestão de risco por parte do investidor. Rizzo, da Multiplike, por sua vez, destaca que o diferencial de juros brasileiro permanece elevado mesmo após cortes, o que sustenta a entrada de capital estrangeiro e pode favorecer uma valorização do real.
Pletes, da Faz Capital, acrescenta que o dólar também perde força no cenário global, beneficiando moedas emergentes. O fluxo recente para a bolsa brasileira reforça essa leitura, um IPCA mais benigno confirma o ciclo econômico e sustenta o apetite por risco no País.
Estadão.

